quinta-feira, janeiro 05, 2006

Os Três Reis

É altura de festejar os Reis. Nada de especial tinha programado para colocar aqui alusivo à efeméride, até que, como se nada fosse, ou como se tudo tivesse a ver… um texto simbólico e belo da Risoleta Pedro, veio subitamente até mim. E não foi possível resistir sem o ler de imediato … Deixo-vos com ele. Espero que gostem!
Jorge Moreira


OS TRÊS REIS

Recuemos até ao ano um, aquele ano em que nasceu uma estrela, talvez a mais importante do céu e da terra.
Foi um facto inédito, porque essa estrela quis nascer na terra. Foi, aliás, a única estrela em toda a história da humanidade e das próprias estrelas, que nasceu na terra.
E essa estrela quis nascer de duas mães. Como estrela especial tinha direito aos seus caprichos. Ou desejos.
A estrela nasceu, então, de dois ventres: o ventre da mãe e o ventre da gruta. Nasceu numa gruta, a estrela. Para que isso acontecesse teve que transportar para dentro da gruta a outra gruta mãe.
A gruta móvel, foi humildemente transportada por um burro para dentro da gruta arca. Assim foi uma gruta ao encontro de outra gruta para o nascimento de uma estrela. Essa estrela filha de duas mães teve, por isso, dois nomes: o nome que a mãe Ihe deu foi Jesus, o nome dado pela gruta maior foi Cristo.
Assim nasceu a estrela Jesus Cristo. Esta estrela com dois nomes e duas mães tinha que ter dois corpos: um corpo de carne, ou de terra, o que é o mesmo, tal como nós, e um corpo de luz, como nós também, com a diferença que a nossa luz a tão fraca que mal se vê ou não se vê mesmo. No entanto esta lá.
Foi esse corpo de luz, muito leve, que na noite do nascimento da estrela subiu ao céu e contemplou as duas mães que na terra o protegiam: Um ventre e uma rocha, a mãe mulher e a mãe gruta.
No mesmo momento, no oriente, três reis contemplavam o brilho da nova estrela, tão imenso era.
Muito intrigados ficaram. E apaixonados, claro. Quem resiste ao brilho de um jovem sol?!
Estes reis tinham estudado magia, logo, eram seres especiais. Contemplaram as cartas e consultaram os oráculos e os mistérios e perceberam que estavam perante um momento muito especial da humanidade e que não poderiam perder aquela estrela, ainda que para isso tivessem de caminhar de oriente para ocidente. Fizeram-no montados em camelos.
Quando nasce uma criança é costume oferecer-se-lhe presentes. O mesmo sucede quando nasce uma estrela. Afinal, uma estrela que acaba de nascer também é um bébé, ainda que o seu corpo seja poeira luminosa e cintilante.
Os três reis transportaram cuidadosamente sobre os colos, balançados pelos camelos, a mirra, o incenso, o ouro: o céu da terra, o perfume do ar, o petróleo do tempo. E viajaram. Estavam no oriente. Dirigiram-se para ocidente, o oriente deles, porque dai brilhava a estrela. Nunca Ihes passou pela cabeça rivalizarem uns com os outros ou lutarem por ela. Simplesmente uniram esforços e meteram-se ao caminho, os três companheiros, ao encontro do amor de uma estrela.
Tinham nomes de heróis ou de poetas, os três reis apaixonados: Baltazar, Gaspar, Melchior. Um rei apaixonado é um herói ou um poeta que abandona o reino e se põe a andar ao encontro de uma estrela. Troca o poder pelo amor, o ouro pela alma, a morte pela vida. Um rei apaixonado não pede à estrela para esperar, não faz desvios nem negoceia a viagem. Adia o conselho de ministros, desconvoca o conselho de guerra, anula todas as audiências marcadas. Sobe para o camelo e mete-se a caminho. A estrela espera-o no final da viagem. E apenas isso interessa. Os reis puseram-se a caminho e não olharam para trás. Sabiam que se o fizessem se transformariam em estátuas de sal ou em montanhas. Sabiam o perigo em que colocariam a estrela que os esperava. Não arriscaram. Amavam aquela estrela sol ainda tão frágil, necessitando tanto deles. Não se arrependeram.
Tiveram a confirmação quando se ajoelharam no solo aos pés do sol ainda tão pequeno mas tão intenso e sentiram o calor dele entrando nos seus corações.
Foi nítido o que aconteceu nesse momento dentro dos corpos. Algo estalou (ouviu-se) e todo o mal derreteu e toda a luz percorreu a uma velocidade vertiginosa os canais do corpo limpando e transformando em felicidade cada órgão, cada víscera, cada osso, cada célula.
Desde então todos os anos os reis repetem a maravilhosa viagem do oriente que e o ocidente deles até ao ocidente que é o seu oriente, adiam o conselho de ministros, desconvocam o conselho de guerra, anulam todas as audiências marcadas. Já não vêm ao encontro de uma estrela porque o sol, desde esse ano um, está definitivamente com eles. Vêm ao nosso encontro e trazem-nos renovadamente a estrela. Sabem que precisamos dela. Juntamente com a estrela trazem o céu da terra, o perfume e o mistério. o ouro, o incenso e a mirra.

Risoleta Pedro (texto extraído da Revista Buddhi nº8 de Dezembro de 2003, aqui publicado com a devida autorização da autora).

7 comentários:

Mendes Ferreira disse...

obrigado. excelente leitura. bom dia.

beijo.

Sandra Feliciano disse...

descoberta do dia: este blog e... que somos ambos admiradores da RPP, entre outras coincidências... interessante! ;-)

Até breve e recebe um .:TAF:.

TMara disse...

Jorge, é belíssimo. Obrigada. bjs de luz e paz (qnd tiveres + novas da Isabel diz)

Pagan disse...

Olá Jorge, obrigado pela visita e pelo elogio. Este texto fez-me lembrar um filme que vi há muito tempo, entitulado "O 4º Rei Mago"(não estou seguro da exatidão do título). É uma das mais tocantes histórias de amor e devoção que alguma vez me foi dada a ver. Um abraço e um bom ano de 2006. P.S. Partilhamos o mesmo apelido

maat disse...

bela escolha.
E ...também porque a RPP é uma pessoa muito especial.

Obrigada,Jorge.

***maat

Aran disse...

Obrigada por relembrares essa magnifica história!!!! Gostei de ler... bjinhos

Pink disse...

Texto fantástico, muito belo, tocante, mesmo. Belo modo de celebrar os Reis!

Um beijo