terça-feira, janeiro 16, 2007

Maria Beatriz Serpa Branco

na nossa infância os dias eram outros
longos dias de sol
vividos em sossego
no viver sempre aberto de nossa quietação
sem pressas e sem medos

sages de longa idade
sabíamos o tempo
vivíamos sem tempo
e a vida a rodear-nos braços que nos amavam

não tínhamos memória
do que antes conhecíamos
cada dia era um dia
e não uma cadeia
a prender-nos as mãos a horas já passadas
a gestos copiados

vivíamos o dia
dormíamos a noite
e nem quem nos morria estava ausente

a morte era uma porta
por onde entravam todos que saíam
a morte não havia
morríamos ao dia em cada noite
e em cada dia a vida renascia

Maria Beatriz (Évora, 1973)
1923 - 2006 - Em Memória de uma Senhora Extraordinária.
Clica no título e sabe mais...

9 comentários:

Isabel José António disse...

Caro Amigo Jorge,

Estive no funeral da Maria Beatriz.
Não imaginas como um funeral pode ser uma coisa bonita, como aquele foi.

Uma sensação de paz, de amor impessoal e intemporal. Lágrimas de serenidade por termos tido o privilégio de partilhar alguns pedaços de privacidade com esta grande MULHER com menos de 1,50m de altura.

Não há mais palavras.

Onde estiver ela saberá que lhe queremos tão bem...

Um abraço

José António

Isabel José António disse...

Querido amigo Jorge,

Peço desculpa por utilizar assim este teu post, destinado a cumprir a função de recordar sempre esse grande ser humano que foi a nossa amiga Maria Beatriz, para, talvez a proósito duma morte, ajudar a perceber quem somos. É um extracto dum livro de acabei recetemente de ler. Ei-lo:

"...
Descartes, filósofo do Séc. XVII, considerado o fundador da filosofia, deu expressão a este erro primordial através da sua famosa máxima (que considerava uma verdade fundamental): "Penso, logo existo". Esta foi a resposta que encontrou para a questão: "Há alguma coisa que eu possa saber com uma certeza absoluta?". Ele entendeu que o facto de estar sempre a pensar não deixava qualquer dúvida e, por isso, comparou pensar a SER, ou seja, comparou a identidade - Eu Sou - ao pensamento. O que ele realmente tinha descoberto era a origem do ego, não a verdade fundamental, mas ele desconhecia isso.

Passaram quase trezentos anos até outro célebre filósofo ver naquela afirmação algo que tinha escapado a Descartes e a toda a gente. Esse filósofo chamava-se Jean-Paul Sartre. Sartre reflectiu intensamente sobre a afirmação de descartes, "Penso, logo existo", e subitamente apercebeu-se, citando as suas palavras, de que "A consciência que diz "existo" não é a consciência que pensa". O que pretenderia ele dizer com isto? Quando temos consciência de que estamos a pensar, essa consciência não faz parte do pensamento. É uma dimensão diferente de consciência. E é esta consciência que diz "existo". Se não houvesse mais nada dentro de nós a não ser o pensamento, nem sequer saberíamos que estávamos a pensar. Seríamos como uma pessoa que está a sonhar e não sabe. Identificar-nos-íamos com cada pensamento, como o sonhador se identifica com cada imagem do seu sonho. Ainda há muitas pessoas que vivem assim, como sonâmbulos, presas a antigos padrões de pensamento disfuncionais que recriam permanentemente a mesma realidade de pesadelo. Quando sabemos que estamos a sonhar, permancemos conscientes dentro do sonho. Entramos noutra dimensão de consciência.
...//...
Em situações limite algumas pessoas perderam todos os seus bens, outras perderam filhos cônjuges, a sua posição social, a sua reputação ou as suas capacidades físicas. Tudo aquilo com que as pessoas se identificavam, tudo o que lhes dava a noção de identidade, foi-lhes retirado. Então, repentina e inexplicavelmente, a angústia ou o grande medo que sentiram de início dá lugar a uma sensação sagrada de PRESENÇA, uma profunda paz e serenidade e uma libertação total do medo. Perguntamo-nos: "Perante este "cenário" como é possível eu sentir tal paz?".
A resposta é simples se compreendermos o que é o ego e como funciona ele. Quando as formas com as quais nos identificamos e que nos dão a nossa noção de identidade desaparecem ou nos são retiradas, isto pode conduzir à ruína do EGO, uma vez que o Ego é a identificação com a forma. Quando não resta nada com que nos possamos identificar, quem somos nós afinal? Nessa altura ganhamos consciência da nossa identidade ESSENCIAL como algo sem forma, uma PRESENÇA universal, um SER anterior a todas as formas, a todas as identificações. Entendemos que a nossa verdadeira identidade é A PRÓPRIA CONSCIÊNCIA e não as coisas com que a consciência se identificava. Esta é a paz de Deus. A derradeira verdade de quem somos não é "Eu sou isto" ou "Eu sou aquilo", mas simplesmente EU SOU. ..."

Extracto do livro: "Um Novo Mundo"
Autor: Eckhart Tolle
Editora: Pergaminho


Um grande abraço

José António

Isabel José António disse...

Querido Jorge,

Que linda homenagem à Querida Amiga e Professora de tantos que por ela foram tocados para a Vida, para a Filosofia e para o Auto-conhecimento!

E que bom ter-te de volta!

Um grande abraço,

Isabel

PS - Actualizei agora o "Observatório"
http://diarioestetico.blogspot.com/

Dark Blue disse...

Devo confessar que nada sei sobre Maria Beatriz, mas gostei do verso e pelo que li, parece mesmo que o mundo ficou um pouco mais escuro desde Dezembro.

Fica bem!

aya disse...

Belo e cheio de sabedoria...

Beijinho

aprendiz de viajante disse...

... a sabedoria da vida...Lindo! Linda homenagem!

Um bjinho para ti e fica bem!

Gi disse...

Estive a ler mais sobre esta senhora que não conhecia. O poema é lindíssimo, mas não deve ser mais do que reflexo da vida bonita que deve ter vivido.
Bom dia e boa semana

sa.ra disse...

olá querido amigo,

que poema tão bonito... tão bonito!

um grande abraço
dia muito feliz!

Cleopatra disse...

..."morte era uma porta
por onde entravam todos que saíam
a morte não havia
morríamos ao dia em cada noite
e em cada dia a vida renascia".

É verdade. Era assim que eu a sentia!
Bj